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ENTREVISTA | Futuristic Grow – Um passeio pelo psytrance freeform BR

Futuristic Grow é o projeto de psytrance freeform de Henrique Jardim. O jovem produtor lança em breve o EP Growing People, que é uma grata surpresa para os ouvidos dos apreciadores de boa música orgânica e também do psytrance. 

Temos vivido um grande momento nas produções do psytrance BR. Nossos artistas, que já vinham ganhando o mundo fazendo um psy cheio de malemolência típica brasileira, não tiveram sua criatividade abalada pela pandemia. Mesmo em meio às dificuldades impostas pelo distanciamento social, temos produções belíssimas em todas as vertentes do psytrance. E agora com Futuristic Grow, ganhamos mais um representante de peso na cena psytrance livre de vertentes.

“(...) a partir de 2021, todos que gravarem um vídeo plantando uma árvore e me marcarem no Instagram @futuristicgrow, @tokisounds e @azimovrecords, terão TODOS os meus releases gratuitamente e em alta qualidade. Esse é o Futuristic Grow. Plantas e vida num cenário futuro onde amor e tecnologia coexistem.”

Na entrevista que você lê abaixo, vamos falar sobre a carreira do nosso convidado e da sua paixão pela música, e introduzir vocês que ainda não conhecem a magia do psytrance freeform e do movimento suomisaundi.

Jardim, conte-nos um pouco mais sobre você e sobre a sua trajetória na música eletrônica.

Meu nome é Henrique Jardim, tenho 25 anos, natural de Ouro Branco-MG e em princípio minha intenção era me formar em agronomia na federal. Nessa época já era DJ, mas tinha somente como hobby. Entrei na faculdade com o objetivo de trabalhar com pesquisas relacionadas à cannabis: desde cosméticos, canabidiol, produtos de vestuário e etc. Estudei 3 anos de Agronomia na UFV.

Num certo dia, vi uma apresentação do produtor FTampa, que é da minha cidade, e me impressionou a forma como ele conseguia mexer com o coração da pista movendo e transformando a música através dos botões do mixer. 

Minha família tinha um clube na cidade onde eu morava e comecei a me apresentar em várias festas tocando um progressivo comercial. Eu já curtia um som mais acelerado, mas não cabia no cenário e na compreensão do público da cidade.

Tempos depois, surgiu uma oportunidade para estudar “Som e Imagem”, numa universidade em Portugal (Ipleiria) e me mudei para lá. Fui aprovado, porém não fui selecionado para as bolsas por não cumprir o requisito de média no ENEM, porém continuei morando em Portugal por uns seis meses, trabalhando e me virando como podia.

Hoje além de DJ e produtor de música eletrônica, trabalho na administração de uma casa/empresa onde moro aqui no Rio de Janeiro e estou prestes a lançar o meu primeiro EP chamado Growing People.  Estamos criando a gravadora Toki Sounds também, além de inúmeros outros projetos bem legais que vocês descobrirão em breve.

Capa do EP Growing People. Imagem: Divulgação.

Já se vão 5 anos desde o réveillon Nungara em que te conheci e aconteceu muita coisa! Conte-nos um pouco da trajetória do Futuristic Grow nos últimos anos atuando como DJ set e live act.

O Futuristic Grow estreou no Nungara! Antes eu tocava como Garden. Sou parte do casting da francesa Ovni Records e da indiana Azimov Records – e é por ela que lançarei o meu álbum completo no fim do ano –  e, durante meus sets, sempre fiz questão de explorar somente o cast de artistas da gravadora e às vezes de amigos próximos com produções bacanas.

Durante a viagem para Portugal, estava juntando grana pra comprar um Macbook, pois o meu laptop havia sido roubado. Porém, as condições em que eu vivia lá não eram tão favoráveis. Trabalhava fazendo os serviços que os portugueses não queriam fazer, e de segunda a segunda praticamente.

Um belo dia recebi uma ligação de um amigo com quem inclusive eu moro hoje. Ele ganhou um Macbook novo da empresa dele e resolveu investir na realização do meu sonho de produzir música me doando o seu Macbook usado. Fiquei maravilhado e disse que iria juntar uma grana pra voltar para o Brasil. Ele disse que estava comprando minha passagem para o dia seguinte. Chegando no aeroporto em São Paulo, estavam lá ele e a namorada Raiane para me receber com o Macbook numa sacola. Acho que é uma das cenas mais emblemáticas da minha vida. O meu sonho estava ali, numa sacola, e foi ali que começaram meus estudos e produções próprias na música eletrônica. 

Esse mesmo amigo (Saulo Vallory) está hoje eternizado na capa do meu álbum, representando um jardineiro que rega e provê crescimento para o Futuristic Grow.

Desde então foi muito trabalho duro porém bem recompensado! Hoje já tenho 20 tracks prontas, mas estou lançando aos poucos. O EP Growing People traz parceria com Kadum, que sempre foi uma grande referência para o meu trabalho, com Psique, uma artista nacional que conta com apresentações ao redor de todo o globo, inclusive no Ozora (Hungria) e fora essas, já tenho realizado colaborações com outros grandes nomes que me inspiram muito e isso é muito gratificante. 

Como surgiu o interesse pelo psytrance freeform e suomisaundi? Quais são suas influências dentro e fora da música eletrônica?

Eu comecei a curtir música eletrônica a partir de um som bem comercial, como a maioria. 

Ouvia muito Felguk, Electrixx, essa linha do Electro. Costumo dizer que certos tipos de som não foram feitos para serem apreciados no primeiro contato com a e-music; é necessário ter uma certa maturidade na audição e até mesmo experiências boas que proporcionem às pessoas ouvir novas referências. Como por exemplo no Jazz, as dissonâncias criadas propositalmente não costumam ser agradáveis para ouvidos que não tem o costume de ouvir isso. 

Quando ainda estava estudando na faculdade em Viçosa-MG, fui a um evento chamado ViJazz, onde pirei com toda aquela sonoridade refinada e cheia de swing, e pensei que um dia poderia agregar essa riqueza musical ao psytrance. Outra referência fortíssima pra mim foi o Ibitiblues, em Ibitipoca, também em MG. Sou apaixonado por jazz e blues.

Já morando em Portugal, aconteceu que um certo dia estava embriagado querendo um rolê de música eletrônica. Estávamos eu e um amigo e eu não tinha grandes pretensões, quando acabamos parando numa boate onde estava rolando show do Parov Stelar – um grupo sensacional que mistura jazz e electro swing – e saí de lá em êxtase. Me lembro bem de ver dois caras de terno e gravata, um tocando piano e controlando os synths, outro tocando saxofone e uma mulher linda com um vestido de gala vermelho cantando. Eu logo pensei, quero fazer algo assim fora da caixinha, inovador, elegante!

Guardo grandes influências de artistas dentro do psytrance: Mubali, Kadum, Terrafractyl, Kayros… e todos eles são um pouco fora da caixa à sua medida, tendo uma das vertentes do psy como pano de fundo, mas cheios de influências musicais densas. Tenho o prazer de estar em collabs com alguns deles hoje em dia!

Penso que o freeform é a liberdade das regras. Dentro do psy cabe tudo, desde que haja a maestria do momento certo! Há um tempo o Nuccho (Necropsycho) colocou um tecnobrega em uma de suas tracks e mesmo sendo um som com característica distinta do que costumamos ouvir nas pistas, quando misturado com a importância daquele estilo pro povo daquela festa específica, principalmente devido a valorização da cultura regional, fez com que o povo fosse à loucura. Lembro bem de quando vi esse vídeo pela primeira vez. Como a grande maioria das coisas fora da caixa, me surpreendeu. 

Sabemos que o cenário brasileiro ainda não está antenado a essa linha de som. Porém eu acho que tem potencial inclusive para atrair pessoas que não gostam de psy, por exemplo. Você acredita que ainda vai acontecer um hype do estilo ou ficará nos redutos underground e de degustadores de música eletrônica?

Acho totalmente possível acontecer. Aliás, penso que já está acontecendo, pois os maiores redutos do psytrance no Brasil estão em São Paulo e redondezas, e a reação do público ao ouvir artistas freeform/freestyle como Dylalien, Fractal Cowboys, Greg on Earth, Mubali, Procs, etc é sempre muito intensa. Além do freeform propriamente, temos artistas batalhando pela difusão do Suomisaundi (Suomi) no Brasil.

Muitos ainda não conhecem, mas o Suomi nasceu como movimento musical psicodélico na Finlândia, e encontrou respaldo em alguns outros países do mundo como o Japão, onde podemos encontrar gravadoras como as Nullzone Records e Adelic Records. Também é bem presente na Rússia, onde temos como referência as gravadoras Sound Kitchen Records e Hippie Killer Productions, por exemplo. Em Israel o movimento é bastante forte também, apesar de não me recordar de nenhuma gravadora específica do estilo.

Aqui no Brasil também não temos uma gravadora específica de Suomi, mas temos representantes da maior label do mundo no estilo: Random Records. Para comandar e gerenciar os projetos em território nacional, ficaram Juliana Siqueira (DJ Mielikki) e Matheus Bianchi (DJ Matheus), que foi um dos embaixadores do estilo no Brasil. Ele vem apresentando sets de suomi já há mais de uma década e também possui uma das maiores coleções de tracks dessa linha no mundo, além de prestar serviços de pós-produção e masterização para vários selos e gravadoras. Um dos destaques de produção autoral nacional é o Hongos Longos, sendo um dos artistas mais respeitados do mundo no estilo.  

Tenho conhecido o movimento e as pessoas fui convidado a me apresentar no próximo evento Global Suomisaundi Gathering, promovido pela gravadora, com um DJ set especial de 2h de duração. O evento está previsto para os dias 30 e 31 de outubro, talvez com acréscimo do dia 29, sendo uma edição especial de Halloween.

Falando um pouquinho mais sobre o festival online, o Global Suomisaundi Gathering já contou com a participação de artistas de 14 países e com uma média de público de 6 mil espectadores, sendo que a primeira edição atingiu 9 mil espectadores e o pico de 24 mil views.

Além disso, tenho investido também nos estudos do Suomi e vou lançar um EP do estilo até o fim do ano. 

Como você define o público do Futuristic Grow, se é que isso é possível?

Todos eles são #forabolsonaro e tem muito amor no coração! Não aceito menos que isso.

É uma coisa que recomendo a todos: planejar, executar e comemorar. Não se esqueçam de nenhum desses 3 pontos.” Futuristic Grow.

Você se lembra de alguma apresentação inusitada ou marcante que queira contar ao público da Colors DJ?

Última festa que toquei, Galática Festival. Toquei 1h de live e 1:30h de DJ Set. Tinha acabado de chegar no RJ, e foi minha primeira apresentação no estado como Futuristic Grow. Fui muito elogiado, chegando a ganhar presentes da pista. As pessoas que me deram presentes se tornaram grandes amigos, pessoas que estão comigo em vários momentos da vida e quero levar pra sempre. Inclusive recentemente vieram me visitar para comemorarmos a conclusão do EP Growing People. Foi marcante para mim pois planejei e executei com maestria o projeto, então a necessidade de comemorar veio. Dessa forma posso considerar que a conquista foi completa!

É uma coisa que recomendo a todos: planejar, executar e comemorar. Não se esqueçam de nenhum desses 3 pontos. 

Foram muitas conquistas além dessa, mas destaco a necessidade de fazer essas coisas com amor e transmitindo uma mensagem. Melhor do que o próprio ato de produzir música é conseguir me conectar às pessoas através dela.

Conseguimos transmitir mensagens, comunicar o que está na nossa alma, nos posicionar politicamente e enquanto seres humanos. O Artwork da capa do Growing People inclusive saiu um pouco da estética normal do psytrance com seus fractais e geometrias e veio para o cartoon, onde eu consigo representar a diversidade de uma forma mais eficaz. Na música “A Sorte”, rola um sample de vocal da Pabllo Vittar e ela aparece representada também ali na capa. 

Acredito que a música possa unir as pessoas, quebrar preconceitos e principalmente, fazer pensar sobre coisas que aprendemos nessa sociedade construída sobre esse modelo zoado de patriarcado. Fui obrigado a ler deboches sobre a presença da Pabllo Vittar na capa e eu sabia que seria assim. Nesse sentido, a arte alcança a emoção e a experiência, fazendo mudar pontos de vista e abrir diálogo em vez de se calar diante dos absurdos que acontecem ao nosso redor.

Pra essa ArtWork do EP tive o trabalho insano do Fábio Felício, que é um ilustrador foda, que faz trabalhos pra grandes empresas como Globo, Mercedes, Djonga e por aí vai. 

Dessa vez ele optou por fazer o trabalho para uma outra grande empreitada: o Futuristic Grow. 

Eu não entrei pra ser mediano e nem fazer um trabalho “legal”. Eu quero impactar vidas. 

Exato! Até porque quem almeja a carreira de DJ somente por status está começando errado. A não ser que você já tenha enfrentado todos os empecilhos que tem à frente de uma carreira de grande destaque que lhe dê muito dinheiro, o status não passa de ilusão. A maioria de nós DJ precisamos de outra fonte de renda, passamos perrengue e muitas vezes estamos longe da independência financeira… Então o que nos move é sim o amor e a arte. A música precisa sim ter conexão, sentimento, transmitir alguma mensagem. Seja abrangendo temas, se posicionando politicamente, abraçando causas, enfim.. a verdadeira arte toca o coração e não é só um apanhado de fórmulas prontas.

Vou aproveitar pra contar uma novidade: a partir de 2021, todos que gravarem um vídeo plantando uma árvore e me marcarem no Instagram @futuristicgrow, @tokisounds e @azimovrecords, terão TODOS os meus releases gratuitamente e em alta qualidade. Esse é o Futuristic Grow. Plantas e vida num cenário futuro onde amor e tecnologia coexistem. 

Agora que estamos em vias de acabar o pesadelo da pandemia, nos diga: já tem agenda? Onde o público que já está devidamente imunizado pode encontrar o Futuristic Grow nos palcos Brasil afora nos próximos meses?

Estou confirmado para o festival Pântano Digital – Regenesis, que ocorrerá nos dias 9 a 12 de outubro, aqui no RJ. O psytrance está prometendo um grande retorno pós-pandemia no estado do Rio de Janeiro. Após este festival, minhas datas estão abertas, finalmente após um longo período de inatividade das pistas e que também fiquei isolado sem tocar por opção própria, em nome da saúde e da minha própria consciência.

“Tem pessoas que nascem com o dom, outras conseguem se esforçar, e na maioria das vezes o esforço supera o dom.”

Mande um recado para os fãs da Colors!

Queria passar uma filosofia de vida que aprendi na universidade de áudio: consistência é a chave.

Tem pessoas que nascem com o dom, outras conseguem se esforçar, e na maioria das vezes o esforço supera o dom.

Uma carreira (qualquer uma) é como um túnel escuro, quando você olha pra frente, lááá na frente, bem distante, você enxerga seu sonho se realizando, mas logo abaixo de você não há chão pra você ir caminhando e chegar até lá.

Só há cimento e ferramentas para você mesmo construir esse caminho até o seu sonho.

Não se consegue olhar para os lados para se comparar com alguém, pois o túnel é fechado. 

Isso nos ajuda a ignorar o fato de que o túnel de alguns tem cimento mais qualificado, ferramentas mais nobres e principalmente mais tempo para construir esse chão. 

Faça no seu tempo, com o que você tem, sabendo onde vai chegar e visualizando isso sempre que possível. 

Consistência é a chave.

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