COLUNA | A diferença entre mim e as minhas similares

Um aviso prévio: a autora percebe que fica difícil explicar a diferença sem entrar nos quesitos raça, saúde mental e feminismo, que também são assuntos polêmicos. A autora também altera a grafia de certas palavras formando neologismos próprios para trazer ênfase aos significados e repercussões de tais termos em cada leitor.

Eu prefiro usar o termo similar porque mulheres trans morrem por homicídio, suicídio, fome, da mesma forma que travestys como eu morrem. Sofremos de formas parecidas. Mas não somos parecidas.

O termo mulher já sugere mulheridade. Seja tal mulher cisgênera ou transgênera, ela estará submetida às expectativas “CISTÈMIKAS” que existem desde que a sociedade foi criada de forma binária e que se alteraram com o tempo.

Feminismo e movimentos libertários lutam contra essas expectativas e demandas para tais mulheres? Lutam! Contudo, ainda se ensinam dentro das famílias brasileiras atuais tais valores. Ainda, existências femininas lidas como mulheres desde o NASCIMENTO ou RENASCIMENTO são submetidas a procedimentos para suprir tais expectativas.

Como assim, Kukua? No caso de uma mulher cisgênera, por exemplo, o furinho na orelha assim que o bebê sai da maternidade/ sai do útero. As penosidades e demandas para procedimentos de aborto por não terem condições de reproduzir/se tornarem mães cuidadoras. No caso de uma mulher transgênera, podendo ser escolha (em muitos caso não o é) até certo ponto, procedimentos estéticos faciais, estéticos na garganta, nos peitos com aplicações de silicone, redesignação da genitália, uma vez que o “Cistema” é extremamente genitalista e algumas sentem necessidade de construir uma genitália como a de uma mulher cisgênera para se sentirem incluídas/respeitadas e, em casos raros e caríssimos, como o de Jessica Alves, implantação de útero para exercer a função reprodutiva, “cistemikamente” apontada como feminina.

Um adendo antes da continuação da diferença: reprodução NÃO É ALGO ESTRITAMENTE FEMININO. Homens trans engravidam, dão luz e “paternizam” seus filhos, assim como as mulheres cis que reproduzem “maternizam” as suas crias. Qualquer citação que dê a entender o contrário se lê como transfobia estrutural direta aos homens trans e aos transmasculinos.

A travestilidade é um tipo de existência ancestral. Assim como indígenas, povo ancestral e verdadeiros donos do continente hoje chamado de América, as travestys têm história e essa história se perpetua no Brasil, principalmente desde Xica Manicongo, a primeira travesty que recusou se deitar para leis da Igreja de 1591 que criminalizavam as existências femininas 100% livres.

Não é crime, hoje, ser travesty, mas existe um preço caro a se pagar com tal identificação. A marginalidade social, afetiva, política, trabalhista, monetária são traços marcantes em toda travesty, principalmente as pretas, racializadas e indígenas.

É algo bastante notável, mas não é regra: existem mais travestys pretas/racializadas/indígenas que brancas e existem mais mulheres trans brancas que pretas/racializadas/indígenas.

Tal fato acima reforça a diferença entre as travas e as trans, principalmente no quesito “higienização”: tecnologia colonial implementada desde o início da colonização e que perpetua até hoje no “Brasil Neocolônia” de hoje.

Travestys, como dito acima, são mais livres de amarras que mulheres trans, mas em contrapartida menos escolhidas para oportunidades “inclusivas” (as quais são tecnologias de pink money apenas, não significam nova alvorada necessariamente).

Ou seja, mesmo em 2022, raras travestys têm sucesso, oportunidades como muitas mulheres trans estão tendo. A visibilidade traz oportunidades para as que são mais higienizadas, ou seja, mais “alvejantadas”.

Ambas buscam a beleza, mas em graus diferentes. As mulheres trans, infelizmente, acreditam principalmente numa definição akadèmika chamada “Disforia de Gênero” que também fazia parte do CID 10. Condição de saúde que considerava todas as pessoas trans como doentes mentais. 

Toda essa argumentativa akadèmika de CID se baseia em pensamentos genitalistas, os quais são além de repreensores sociopolíticos, correntes adoecedoras. 

(Genitalismo: a crença limitante de que gênero é definido pela genital, portanto sexo biológico)

Digo com um pesar de travesty: que mulheres trans ainda se submetem às leis/condições/amarras da cisgeneridade enquanto as travestys escolhem em quais níveis e camadas se submeterão, se tornando existências mais subversivas que submetidas. Essa é a diferença principal.

Não seriam cirurgias, quantidade de silicone ou quaisquer procedimentos estéticos que definiriam a diferença entre ambas, uma vez que travestys escolhem também botar ou fazer quaisquer alterações corporais no decorrer de suas vidas e isso não as torna mulheres trans.

Essa é a diferença entre mim e as minhas similares: acessos, oportunidades, afetos & possibilidades.

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