ENTREVISTA | A nova era de DJs

Se tem uma coisa que os DJs da nova era – mais digital – precisaram aprender na marra durante a pandemia, foi como fazer transmissões de lives. Mas rapidamente, a DJ Anne Louise percebeu que o “negócio” era muito mais sério do que a maioria imaginava.

“…cheguei a dar algumas consultorias sobre live streaming.” Anne Louise.

Anne Louise é sem sombra de dúvidas uma das maiores DJs Profissionais da atualidade, pois sempre chama a atenção pelas suas entregas nas festas de Tribal House brasileiras – e do mundo – e também fora dos eventos, pensando sempre em todos os detalhes possíveis.

Confira entrevista especial com Anne Louise falando sobre esses últimos seis meses de quarentena, das lives em alta qualidade, o novo formato do curso da CAL e muito mais:

Como foi a migração dos palcos ao redor do mundo para as lives shows?

Logo que a pandemia foi declarada, eu sentia que não seria rápido. Como tinha alguns meses com muitas datas programadas para o verão do hemisfério norte, acabei me preocupando em logo pensar uma estratégia para não me afastar do público de lá. Aí criamos um projeto chamado In Da House, direto da minha casa, para a casa das pessoas, transmitindo através do Facebook (era a plataforma possível na época) das casas em que eu teria datas. Fizemos parcerias de trabalho muito boas nessa época, eram datas pra países e públicos diferentes. Aquilo me preencheu, não fiquei tão saudosa das pistas por ter recebido o carinho do publico e ainda tinha a adrenalina das transmissões. Como eu estudei tudo muito antes de outros profissionais, inclusive de vídeo, cheguei a dar algumas consultorias sobre live streaming.

Você, que é uma das DJs que mais transita mundialmente em tours, como tem sido se realinhar em pouco mais de 7 meses de isolamento e agora flexibilização social?

Foi um momento ímpar na minha vida. Apesar de profissionalmente ter sido muito delicado, meu lado pessoal ficou melhor do que nunca. Fiquei muito tempo com minha família na Bahia, realmente muito isolada. A flexibilização eu estou sentindo mais de um mês pra cá, quando voltei pra São Paulo. Mas tem sido bom ficar em casa. Eu viajava muito. Vivia muito cansada. Eu me excedi. E não sabia mais como sair daquele ciclo vicioso de tanto trabalho. Então eu amei esse tempo mais quieta com minha namorada e minha família. Agora estou renovada e pronta pra voltar. E melhor ainda… Porque minha energia está melhor e cheia de ideias pra aplicar.

“temos que colocar toda a força criativa, técnica, objetivo e responsabilidade possíveis pra executar algo pro público”. Anne Louise.

Sabemos que seu padrão de qualidade é impecável. Como foi integrar novas ferramentas nas lives para melhorar a qualidade na plataforma?

Eu acredito que temos que colocar toda a força criativa, técnica, objetivo e responsabilidade possíveis pra executar algo pro público, mesmo que seja arte, que é um furacão de emoções. Isso eu só fui aprender depois de muito tempo, quando entendi o quanto isso tudo poderia me resultar em um sentimento de profissionalismo das pessoas, elas gostam de ver algo realizado com cuidado, pensado com carinho.

Assim que veio a pandemia, eu me concentrei em estudar todas as técnicas que existiam disponíveis na internet sobre live streaming. O que existia de conteúdo era muito pouco, por isso tive que estudar em 3 idiomas até montar um setup que conseguisse entregar um material com qualidade de som e precisão na transmissão. Como sempre gostei de vídeo, já tinha algo de câmera também que me ajudou. Eu e Monica, minha namorada, conseguimos fazer transmissões muito legais, saí feliz dessa época.

Sabemos que você tem uma escola que profissionaliza Deejays, profissionais da música e produtores em Salvador. E que já era de bastante destaque e sucesso pré-pandemia. Quais são seus planos para reativar as aulas? Teremos formato dos cursos em EAD? Até para pessoas interessadas de outros estados?

Na verdade, hoje eu moro em São Paulo, mas a escola existe em Salvador, com alguns professores e cursos não só de DJ, mas de produção musical também. Eu vinha aplicando o curso de DJ no Rio, Belo Horizonte e Brasília. E o plano agora é montar a turma paulistana. O curso EAD já está sendo gravado. Estamos montando uma plataforma com diversos módulos de cursos para que eu possa passar um tanto do que tenho de experiência e de estudo na área técnica de discotecagem, mas sobretudo sobre criação de imagem artística, impulsionamento nas redes e comunicação com o público, como chamar atenção no mercado, Direito e contratos e tudo necessário pra que o profissional DJ se projete com sucesso no mercado. Fora DJ, eu sou advogada de formação e estudei anos de Relações Públicas.

Sua rotina nesses últimos meses tem se resumido a produzir, gerir seus outros negócios e preparar o retorno presencial ou tem mais alguma novidade que você possa adiantar aos nossos leitores?

Além das minhas marcas de roupa e acessórios, músicas para os digitais shows e o curso de DJ, eu tenho me concentrado muito em vídeo. Virou minha nova paixão e eu irei lançar esses dias um novo conceito de vídeo para YouTube, algo que venho apostando bastante, algo ligado a arte, ao que ama minha alma. 

Vimos seu projeto presencial na San, onde você é estrela desde a estreia. Como é pra você tocar em sua cidade Natal, onde remete tantas emoções desde a época do beco da off, da sua banda musical. Conte-nos como você lida com as emoções de toda uma carreira consolidada com muito suor?

Eu tenho uma história longa na música, já são 14 anos como DJ, com 7 anos eu já estava em aula de piano clássico. Foram muitas fases distintas. Já tive banda, já estive em outras cenas da música eletrônica. Já fui underground, já toquei em raves e depois cai numa cena bem comercial. Cada conquista é muito comemorada, até por ser fruto de muito trabalho. É incrível como nada da minha vida veio fácil. Ninguém sabe muito, até porque o público só vê o produto que nós artistas projetamos nas redes pra eles conhecerem, mas desde o início nada foi simples de se conseguir.

Minha família não apoiou, eu não tive apoio de contratantes ou pessoas grandes. Eu era sozinha, numa cidade distante, como Salvador. Tive que estudar e mapear o mercado nacional, entender como chamar atenção nele, como me soltar da minha timidez, como encarar os palcos de uma forma única, porque se não fosse assim, eu sabia que continuaria em Salvador até hoje. Por isso sempre digo pros meus alunos que tudo é possível, até uma nerd baiana de 12 graus miopia que não conseguia falar com ninguém, estar tão tranquila tocando num palco pra 5 ou 10 mil pessoas em São Paulo.

Seus planos de 2020, teoricamente foram todos transferidos para pós pandemia, exceto os que conseguiram encaixar no formato remoto. Quais suas estratégias para fazer de 2021, pós vacina, mais um giro ao mundo?

Acho que não só eu, mas outros artistas passaram por isso. 2020 seria o ano de um auge profissional que estou lutando há tempos. Mas eu sou espiritualista e sei que tudo vem por um motivo. Talvez se eu tivesse continuado da forma imparável como eu estava eu não teria conseguido continuar como DJ nem mais um ano sequer. Agora estou descansada, feliz e pronta pra dar o melhor de mim nesse retorno. Vamos voltar com tudo pra girar ainda mais o mundo!

Como você, que é cidadã do mundo, vê as novidades em torno do novo normal? Tem acompanhado o progresso ou retrocesso de alguns lugares fora do Brasil? Sente vontade de ficar na função aeroporto / aviões / hotéis e possíveis aglomerações depois da marca alarmante do 1 milhão de mortos no mundo todo pelo Coronavírus?

Eu tenho ficado muito preocupada. Não sei se por ficar muito tempo com minha família, mas acabei me acostumando a vida muito em casa. Álcool, lavar tudo e cuidados com máscara sempre. Cheguei a andar de face shield de uma cidade pra outra pra gravar digital show.  Estou acompanhando o andamento dos outros países, sobretudo os que tenho mais laços e amigos. E não sei mais como reagir a tudo isso. Ainda estou com certo medo do que nos aguarda. Eu tenho optado por não pensar muito sobre o futuro, porque me dá até certo medo. Algo me diz que não será a última vez que passaremos por isso. E tenho medo do que serão as próximas. 

Realmente não dá pra pensar muito nisso mesmo Anne!

Fiquem atentos a coluna mensal dessa grande artista! Ela tem muito a contribuir com este projeto da Colors DJ, fazendo parte da equipe de colunistas da revista.

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